A consultoria EY divulgou nesta semana a nova edição da pesquisa “Top 10 Riscos e Oportunidades no Agro”, e o resultado confirma o que o campo já sente na pele: as mudanças climáticas são, pelo segundo levantamento consecutivo, o principal risco do agronegócio brasileiro. 79% dos entrevistados classificam os impactos climáticos como altos ou muito altos para seus negócios. O estudo ouviu 52 executivos de fornecedores de insumos, produtores, agroindústrias, tradings e compradores de commodities, com faturamento anual entre R$ 3 bilhões e R$ 60 bilhões.
O ranking completo dos riscos
Depois do clima, a segunda maior preocupação é a gestão de pessoas — o setor convive com déficit estimado de cerca de 180 mil profissionais qualificados, agravado pela digitalização acelerada. Na sequência vêm a geopolítica (conflitos e tensões comerciais pressionando fertilizantes, energia e logística), as políticas e regulações (com a reforma tributária como novo fator de atenção) e a transformação digital, cuja adoção ainda esbarra em conectividade rural e qualificação.
A lacuna que define quem perde
O dado mais incômodo do estudo não é o ranking — é a distância entre percepção e ação. As empresas reconhecem o risco climático, mas apresentam baixo nível de prontidão para enfrentá-lo. Como resume Otávio Lopes, sócio-líder de Agronegócio da EY, quanto maior essa lacuna entre o impacto do risco e o preparo da organização, maior é o risco real. Enquanto isso, cresce a pressão de investidores e compradores internacionais por rastreabilidade, práticas sustentáveis e redução de emissões — ou seja, o clima deixou de ser só um risco de produção e virou critério de acesso a mercado e a crédito.
O que o produtor deve fazer
A leitura prática é direta: risco climático se gerencia com antecedência, não na emergência. Três frentes valem prioridade ainda em 2026: primeiro, regularização ambiental em dia (CAR, reserva legal, outorgas), porque é a porta de entrada para crédito e seguro em condições melhores; segundo, documentar práticas de baixo carbono já adotadas — plantio direto, ILPF, recuperação de pastagens — que podem virar receita com a regulamentação do mercado de carbono avançando até dezembro; terceiro, diversificar receita e proteção, combinando seguro rural, contratos futuros e projetos ambientais. A própria EY aponta mercado de carbono e biocombustíveis entre os temas que mais devem ganhar força nos próximos anos.
Quem trata a agenda climática como custo tende a ficar para trás; quem trata como ativo entra na fila da remuneração por serviço ambiental antes da maioria.
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