O Ministério da Fazenda apresentou em maio ao comitê técnico do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) a proposta preliminar de cobertura setorial do mercado regulado de carbono. Pelo desenho atual, a primeira etapa — prevista para 2027 — alcança papel e celulose, ferro e aço, cimento, alumínio primário, petróleo e gás, refino e aviação. Uma segunda leva, em 2029, traz mineração, setor elétrico, vidro, química e a indústria de alimentos e bebidas. A consulta pública deve ir ao ar em julho e a meta do governo é fechar as normas da primeira fase até dezembro de 2026, com obrigatoriedade plena até 2030.
A agropecuária ficou de fora da obrigação — de propósito
A Lei 15.042/2024, que criou o SBCE, deixou a produção rural fora do teto de emissões. Na prática, o produtor não terá de comprar permissões para continuar plantando ou criando gado. Isso costuma ser lido como alívio, mas o ponto importante é outro: ficar fora da obrigação não é ficar fora do mercado. O agro entra pelo lado da oferta, como gerador de créditos que os setores obrigados precisarão comprar para cobrir o que emitirem acima do limite.
Por que isso interessa a quem está no campo
Quando a indústria pesada passar a ter teto, ela terá duas opções: reduzir emissão ou comprar crédito de quem remove ou evita carbono. Isso cria uma demanda estruturada, com regra e preço de referência — diferente do mercado voluntário, mais raso e volátil. Floresta em pé, recuperação de pastagem degradada, plantio direto consolidado e sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta são exatamente o tipo de ativo que gera esses créditos. O produtor que hoje enxerga a reserva legal só como custo pode passar a vê-la como linha de receita.
O que fazer na janela 2026-2027
O intervalo até a entrada em vigor é de preparação, não de espera. Quem chega com a documentação pronta captura o prêmio; quem deixa para depois corre atrás. Na prática isso significa: CAR regularizado e sem pendência, comprovação de adicionalidade (provar que a remoção não aconteceria de qualquer jeito), e um sistema de medição, relato e verificação (MRV) que sustente o crédito numa auditoria. Sem essa base, o projeto não fecha — por melhor que seja a fazenda.
O recado é direto: o mercado regulado vai dar régua e preço ao carbono brasileiro, e o produtor organizado entra como fornecedor de um insumo que a indústria será obrigada a comprar. Vale começar o diagnóstico da propriedade agora, enquanto as regras ainda estão sendo escritas.
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