O que aconteceu
O Brasil caminha para mais uma safra recorde de algodão. A Abrapa (associação dos produtores) estima a produção da temporada 2025/26 em 4,25 milhões de toneladas de pluma, alta de 14,8% sobre o ciclo anterior. No mercado externo, o desempenho acompanha: as exportações de maio somaram 230,34 mil toneladas, o maior volume já registrado para o mês, e a safra acumula 2,9 milhões de toneladas embarcadas — 4% acima de tudo o que foi escoado na temporada passada inteira.
O paradoxo do preço
O que era para ser uma temporada de festa esbarra num detalhe incômodo: o preço. Diferentemente do que se esperava com a demanda global firme, o indicador do Cepea opera desde novembro de 2025 próximo ao preço mínimo fixado pelo governo federal, de R$ 114,58 por arroba de pluma. A explicação está na própria abundância — safra cheia no Brasil, oferta global confortável e estoques internacionais pressionando as cotações para baixo. Em outras palavras, o produtor vende mais volume, mas cada arroba rende menos.
Contexto e impacto para o produtor rural
Para o cotonicultor, o recado é de gestão fina. Produção recorde com preço no piso significa que a rentabilidade do ano vai depender muito mais de custo por hectare e de produtividade do que do preço de venda — variável sobre a qual o produtor tem pouco controle no curto prazo. É o tipo de cenário em que travar preço em momentos pontuais de alta, usar instrumentos de proteção (hedge) e acionar a política de garantia de preços do governo quando o mercado encosta no mínimo deixam de ser luxo e viram ferramenta de sobrevivência.
Olhando adiante, há um sinal de equilíbrio: para 2026/27, o mercado projeta produção global em torno de 25,26 milhões de toneladas, queda de 3,22% ante o ciclo atual. Menos oferta lá fora pode ajudar a destravar preços — mas é uma aposta de médio prazo, não um socorro para a safra que está sendo colhida agora.
O que fica para quem está no campo
O algodão de 2025/26 é um retrato do agro brasileiro maduro: competitivo, recordista em volume e cada vez mais relevante no comércio global, porém exposto a um mercado que não paga prêmio por eficiência. Quem planeja bem o custo, protege parte da receita e usa as ferramentas de comercialização disponíveis atravessa o ciclo de preço baixo em melhor forma do que quem aposta tudo na alta que talvez não venha.
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